Gestão financeira para pequenas empresas

Sua empresa dá lucro? O perigo de tocar o seu negócio no “achismo”

Responda rápido: o mês passado deu lucro ou prejuízo? E de quanto? Só não vale olhar o saldo da conta, porque ele não responde essa pergunta (daqui a pouco você vai entender por quê).

Se a resposta foi “acho que deu”, “o movimento foi bom” ou um silêncio desconfortável, este texto é para você. E vai um aviso de amiga antes de continuar: ele não foi escrito para te deixar tranquilo.

Não saber se o negócio dá lucro não é um detalhe de gestão que se resolve “quando sobrar tempo”. É o tipo de ponto cego que fecha empresa que vende, que tem cliente e que tem dono trabalhador.

A intuição engana, e engana justamente quando o dinheiro está entrando

A intuição do dono vale muito. É ela que sente o cliente, o produto e o momento do mercado. Mas, para dizer se o mês deu lucro, ela é péssima conselheira, por três motivos:

  • Dinheiro na conta não é lucro. O saldo de hoje pode incluir dinheiro que já tem dono: o fornecedor que vence semana que vem, o imposto do mês, a parcela do empréstimo. A conta parece cheia, e o mês pode ter fechado no vermelho.
  • Movimento não é lucro. Loja cheia, agenda lotada e muita venda no cartão dão a sensação de que está tudo bem. Mas, se cada venda deixa menos do que custa, quanto mais você vende, mais perde.
  • A memória escolhe o que lembrar. A gente lembra da venda grande do dia 15 e esquece as tarifas, a taxa da maquininha, as assinaturas e os pequenos gastos que, somados, comem o resultado.

A intuição percebe o movimento. Só a conta mostra o resultado.

Os números que ninguém gosta de ver

Fechar as portas não é exceção no Brasil. Segundo o IBGE, das empresas com empregados que nasceram em 2017, menos de 4 em cada 10 ainda funcionavam cinco anos depois (IBGE, via Agência Brasil). Entre os microempreendedores individuais, um levantamento do Sebrae divulgado em 2021 estimou que 3 em cada 10 fecham em até cinco anos (Agência Sebrae).

As pesquisas não dizem que todas essas empresas fecharam por não saber se davam lucro, e seria desonesto afirmar isso. Mas, no mesmo levantamento do Sebrae, a falta de capital de giro, ou seja, de dinheiro para tocar o dia a dia, foi apontada por 22% de quem encerrou as atividades. E o capital de giro raramente some de uma vez: ele vai sendo consumido, mês após mês, por prejuízos que ninguém mediu.

Seis perigos de não saber se o mês deu lucro

1. Pagar para trabalhar

Pense num produto que custa R$ 60 e é vendido por R$ 84, o famoso “custo + 40%”. Parece uma margem boa. Mas, depois de descontar os custos de vender (como taxas e comissões) e a parte das despesas fixas que cada venda precisa cobrir, essa venda pode deixar R$ 2,88 de prejuízo. É o exemplo que detalhamos no artigo sobre preço de venda.

Exemplo ilustrativo: 100 unidades vendidas no mês × R$ 2,88 = R$ 288 a menos no mês. E, de fora, tudo parece ótimo: o produto vende bem e o dinheiro entra.

2. Tirar um lucro que não existe

Quem não sabe quanto sobrou retira o que “parece” que dá. Se a retirada é maior do que o lucro, a diferença sai do caixa da empresa. É como comer a semente que ia plantar a próxima colheita. Demora meses para aparecer e, quando aparece, o caixa já está fraco.

3. O buraco cresce em silêncio

Um prejuízo de R$ 500 num mês assusta pouco. Seis meses seguidos são R$ 3.000 (valores ilustrativos). Sem um fechamento mensal, cada mês ruim se esconde atrás do mês seguinte, e o problema só aparece quando o saldo já não fecha.

4. O cheque especial vira sócio

Quando o caixa não fecha e ninguém sabe por quê, a saída mais rápida costuma ser a mais cara: cheque especial, rotativo do cartão, empréstimo feito às pressas. São linhas de crédito com juros muito altos. A empresa passa a trabalhar para pagar o banco, e o dono continua sem saber de onde veio o buraco.

5. Decisões importantes tomadas no escuro

Contratar mais um funcionário, alugar um ponto maior, fazer um estoque grande para a data comemorativa. Decisões desse tamanho, tomadas porque “o movimento está bom”, podem transformar um negócio que estava empatando num negócio que dá prejuízo todo mês.

6. Descobrir tarde demais

Este é o perigo que junta todos os outros. Quem acompanha o resultado todo mês descobre o problema no mês 1, quando ainda dá para mexer no preço, cortar um gasto ou renegociar um contrato. Quem vai no achismo descobre no mês 6, pelo saldo negativo, quando as opções já são poucas e caras.

Quanto custa não saber?

Volte ao exemplo do item 1: R$ 288 por mês perdidos em um único produto com preço errado. Some a isso um mês pagando juros de cheque especial, ou uma contratação feita na hora errada. Agora compare com o custo de saber, todo mês, se a sua empresa deu lucro ou prejuízo.

Saber custa pouco. Não saber pode custar a empresa.

Dá para fazer sozinho, mas precisa ser todo mês

A boa notícia: descobrir o resultado do mês não exige sistema caro. No artigo Como saber se a sua empresa teve lucro ou prejuízo no mês, mostramos o passo a passo para separar e organizar as entradas e saídas do extrato do banco até chegar ao resultado. E o artigo sobre DRE gerencial traz uma planilha gratuita para você usar.

O desafio não é saber fazer. É fazer todo mês, sem falhar, no meio da correria de quem atende cliente, compra mercadoria, resolve problema e ainda cuida da casa. Na prática, é a primeira tarefa que fica para depois. E “depois”, como você viu, pode ser tarde demais.

Quer saber onde você está? Faça o teste “Sua empresa está no achismo?”: são 8 perguntas, leva 2 minutos e não pede cadastro.

Este artigo é informativo e não substitui a orientação do seu contador. Os valores dos exemplos são ilustrativos. Dados de fechamento de empresas: IBGE, Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2022 (divulgado em dezembro de 2024); Sebrae, Sobrevivência de Empresas 2020 (divulgado em junho de 2021).

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